E o Prêmio das Nações Unidas de Direitos Humanos vai para… -Nº 10 (2018)

No dia 25 de outubro, a presidenta geral da ONU anunciou os vencedores do Prêmio das Nações Unidas de Direitos Humanos de 2018. Criado em 1966, esse prêmio é um reconhecimento da comunidade internacional dos esforços de uma pessoa ou grupo de pessoas para promover os direitos humanos.

Entre os vencedores de anos anteriores estão nomes bem importantes e de que você certamente já ouviu falar, como Martin Luther King, Nelson Mandela e Malala Yousafzai.

Este é um ano especial, porque a Assembleia Geral da ONU entregará o prêmio pela 10ª vez e também porque a Declaração Universal de Direitos Humanos completa 70 anos.

Mas a grande notícia é que entre os ganhadores está a brasileira Joênia Batista de Carvalho, também conhecida por Joênia Wapichana. Você sabe quem é essa brasileira ganhadora de um prêmio tão importante?

 

  1. A história de Joênia Wapichana
  2. Quais são as causas defendidas por Joênia Wapichana?
  3. Existem outros índios na política?
  4. Quem são os outros vencedores e vencedoras que dividem o prêmio com Joênia?
  5. Pergunte a quem entende: Com Joênia Wapichana

 

A história de Joênia Wapichana

Joênia Wapichana nasceu na comunidade indígena Truarú, no estado de Roraima. Ainda menina, deixou a comunidade para estudar em Boa Vista, a capital desse estado.

Joênia conseguiu algo muito raro para uma mulher indígena: estudar na Universidade Federal de Roraima. Talvez você já saiba, mas para estudar em uma universidade federal é preciso fazer uma prova bem difícil e competir com muitos concorrentes. Pois bem, ela fez essa prova e ficou classificada em 5º lugar!

Com isso, em 1997, Joênia se tornou a primeira mulher indígena a se formar em Direito no Brasil. Ah! E ela também fez um mestrado na University of Arizona, dos Estados Unidos.

Como se não bastasse ser a primeira mulher indígena a se tornar advogada, essa defensora de direitos humanos de comunidades indígenas foi eleita deputada federal no último outubro. Assim, ela também se tornou a primeira mulher indígena a ocupar o cargo de deputada federal na Câmara dos Deputados.

 

Quais são as causas defendidas por Joênia Wapichana?

Nos últimos anos, Joênia Wapichana tem atuado na proteção das terras dos índios. Desde a década de 1980, o governo brasileiro vem demarcando áreas onde os índios brasileiros vivem, plantam e caçam há muitas gerações. A demarcação é importante para garantir que essas regiões não sejam tomadas, por exemplo, por fazendeiros interessados em terras para plantação e para a produção de gado.

Além do direito à posse de suas terras, a deputada acredita ser fundamental garantir também outros direitos para os índios. Por isso, ela propõe:

  • um sistema próprio de educação escolar indígena,
  • a melhoria no atendimento médico dos índios,
  • que seja escutada a opinião dos indígenas sobre os projetos de lei que são votados na Câmara,
  • que seja discutido o novo Estatuto do Índio, já que o antigo é de 1973,
  • a proteção do meio ambiente, principalmente da Floresta Amazônica, e o investimento em fontes de energia menos poluentes, como a energia dos ventos (eólica) e a energia solar.

Existem outros índígenas na política?

Em toda a história da Câmara, apenas um indígena ocupou o cargo de deputado federal antes de Joênia: o ex-deputado Mário Juruna, entre 1982 e 1986.

Juruna nasceu na aldeia xavante Namakura, que fica na cabeceira do Rio Xingu, no estado do Mato Grosso. Filho do cacique Apoenã, chefe de sua tribo, Juruna viveu sem contato com a população branca brasileira, até os dezessete anos.

Antes de se tornar deputado, Juruna já era um reconhecido defensor dos direitos indígenas. Por isso, ele foi convidado por um importante tribunal internacional de guerra, o Tribunal Bertrand Russell, para ser jurado em julgamentos de crimes contra indígenas do mundo inteiro. Naquele ano, o julgamento ocorreria na Holanda, o que era um grande problema, já que em 1980 os índios eram proibidos de viajar para o exterior!

Foi preciso que Juruna conseguisse uma autorização do STF (Supremo Tribunal Federal) para sair do Brasil, mas o esforço valeu a pena. O ex-deputado foi tão bem recebido na Holanda, que foi convidado a ocupar a cadeira de presidente do Tribunal Bertrand Russell.

Juruna ficou conhecido por usar um gravador para registrar o que o “homem branco” dizia. Seu objetivo era mostrar que os políticos prometiam muitas coisas, mas nem sempre cumpriam. Com essas histórias, o ex-deputado organizou um livro chamado O Gravador de Juruna.

Juruna morreu aos 58 anos em 2002.

Quem são os outros vencedores que dividem o prêmio com Joênia?

Joênia Wapichana divide o Prêmio das Nações Unidas de Direitos Humanos de 2018 com outros três vencedores:

  • a defensora dos direitos humanos de mulheres e meninas da Tânzania, Rebeca Gyumi;
  • a organização irlandesa Front Line Defenders (Defensores da Linha de Frente), que tem o objetivo de proteger defensores e defensoras dos direitos humanos de riscos e ameaças;
  • a advogada de minorias religiosas perseguidas e mulheres do Paquistão, Asma Jahanguir. Asma faleceu em fevereiro de 2018 e, por isso, receberá o que é chamado prêmio póstumo

Pergunte a quem entende: com Joênia Wapichana

Para a décima edição da nossa revista, recebemos muitas questões interessantes de crianças e adolescentes sobre o tema. As escolhidas foram encaminhadas para a própria Joênia Wapichana, indígena brasileira ganhadora do Prêmio das Nações Unidas de Direitos Humanos. Nos áudios abaixo, Joênia relembra sua infância na comunidade Wapichana e a mudança para Boa Vista, capital de Roraima. Ela também explica suas ideias para a melhoria da qualidade de vida da população indígena e conta como é ganhar um prêmio tão importante.

Para acompanhar, clique na setinha azul.

 

Expediente:

Texto: Cibele Carvalho

Ilustração: Livia Arnaut

Editorial Mirim: Samuel, João, Gustavo, Lucas, Carol, Maria Clara, Gabriel, Larissa e Pedro.

Convidado especial: Joênia Wapichana

Agradecimentos: Tana Guimarães, Patrícia Machado e equipe do Instituto Ouro Verde.