O ano de 2018 para cinco crianças. Nº 11 (2018)

 

Todo fim de ano a história se repete! As pessoas ficam mais emotivas e começam a relembrar o que aconteceu nos últimos 12 meses. As escolas reúnem a produção dos alunos (o que é chamado de portfólio) e as empresas fazem reuniões com gente engravatada para pensar sobre o que deu certo e o que deu errado no trabalho daquele ano (a isso, chamam de balanço).

Jornais e revistas também relembram os principais fatos ocorridos no Brasil e no mundo: eventos esportivos, desastres naturais, acontecimentos políticos, descobertas científicas, tudo isso costuma fazer parte de uma retrospectiva. A palavra retrospectiva vem do latim retrospectare (olhar para trás) e significa exatamente relembrar um período de tempo passado.

E por falar em memória, nos lembramos da frase de uma criança de 11 anos que diz assim:

“O tempo é algo que todos usamos enquanto estamos em lugares diferentes.”*

Essa boa definição nos inspirou a realizar uma edição especial da revista Manga de Vento. Para começar, convidamos cinco meninos e meninas que moram em regiões bem distintas, dentro e fora do Brasil, para relembrar esse tempo partilhado por crianças e adultos de diferentes lugares do planeta: o ano de 2018. Depois, pensamos que seria legal deixar essa edição disponível para assinantes e também para não assinantes. 

A conversa com esses meninos e meninas provocou em nós uma porção de questionamentos que dividimos com você. Será que as retrospectivas levam em conta os interesses de todas as idades? Os grandes fatos do Brasil e do mundo são mais importantes do que os acontecimentos pessoais? Por que as notícias ruins ganham mais destaque do que as notícias boas? Quais fatos as crianças consideram que deveriam realmente ser lembrados?

Bem, isso foi o que pensamos conversando com essas cinco crianças.

E você? O que pensou a partir desses relatos?

2018 para Sofia Hood, de 10 anos, de Belo Horizonte

2018 para Luan Ramos de Souza, de 11 anos, do complexo da maré no Rio de Janeiro

2018 para Giulia Zatri, de 10 anos, de Milão, na Itália

2018 para Aquiles Silva da Encarnação, de 12 anos, da comunidade de Xixuaú, no Amazonas

2018 para Majo, de 12 anos, de Medelim, na Colômbia

 

  • Frase de Liceth Andrea Zuluaga, no livro de frases de crianças “A Casa das Estrelas”, organizado pelo professor Javier Naranjo.

2018 para Sofia Hood, de 10 anos (Belo Horizonte)

Em dezembro, a temperatura média de Belo Horizonte foi de 29ºC

 

Sofia é uma menina de 10 anos que mora na cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais. Em uma tarde bem quente, depois que ela chegou da escola, trocamos mensagens de áudio por meio do Whatsapp. Sofia sabe o que é uma retrospectiva e se lembra de muitos acontecimentos do ano de 2018.

Por exemplo, ela se lembra da Copa do Mundo de futebol, que aconteceu na Rússia e foi vencida pela França. Aliás, no dia em que o Brasil foi eliminado pela Bélgica, era aniversário de sua mãe e, por isso, sua família jogou a tristeza para o escanteio e foi comemorar em um restaurante. Sofia gosta muito de futebol! Ela joga bola na escola e assiste aos jogos na televisão, mas confessa: “Para falar verdade, torço para todos os times, não tenho um preferido.”

Sofia se lembra de um fato que trouxe muita tristeza esse ano: a eleição presidencial. Ela não gostou do resultado, porque considera o futuro presidente machista e racista. “O preconceito é uma coisa que não deveria acontecer” – explica. Outra crítica que ela dirige a Bolsonaro é a falta “de uma visão coletiva do que está acontecendo em volta”.

Tanto na escola quanto em uma parte de sua família, espaços em que Sofia tem uma posição política diferente da maioria, ela sentiu que sua opinião não foi respeitada. Esse foi um momento confuso, “de críticas e coisas assim”. E foi “confuso para todo mundo” e não só para crianças – explica.

A essa altura da conversa, Sofia interrompe com uma questão. Ela queria saber se essa retrospectiva também poderia apresentar fatos pessoais, “porque aconteceram coisas muito marcantes por aqui”. Combinamos que sim, na nossa retrospectiva, os fatos pessoais seriam tão importantes quanto os fatos do Brasil e do mundo.

Com esse acordo entre nós, Sofia contou que passou por uma cirurgia por causa de uma apendicite, que é a inflamação em um órgão chamado apêndice. Apesar de ter doído muito, ela conta que superou esse momento e começou a praticar natação. Ela já está indo para a pré-equipe do clube e está muito feliz com isso, como nos contou: “Eu tinha que fazer uma atividade, por causa da saúde, mas acabei me apaixonando pelo esporte.”

Para o Brasil e para o mundo, Sofia deseja um 2019 cheio de paz e amor. Espera que as pessoas se entendam, que não aconteçam guerras e nem brigas. Para si mesma, Sofia deseja “se dar bem na natação e aprender muitas coisas novas”.

2018 para Luan Souza, de 11 anos (Rio de Janeiro)

Em dezembro, a temperatura média do Rio de Janeiro foi de 31ºC

Luan mora no Complexo da Maré, um conjunto de comunidades da cidade do Rio de Janeiro. Na opinião dele, “uma retrospectiva é como um resumo do que aconteceu no último ano”. Sobre 2018, a primeira coisa que lhe vem à cabeça são as festas organizadas pela escola pública em que estuda:  a festa junina, o Halloween, a festa de encerramento do ano e as comemorações de aniversário dos colegas.  Luan, que está aprendendo a tocar violino na orquestra da Maré, se lembra também de que foi aprovado para a segunda fase da OBMEP, a Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas. “Eu gosto muito de matemática. É minha matéria favorita.”  – conclui.

A comunidade em que Luan mora esteve sob intervenção federal no ano de 2018. Isso significa que o governo federal enviou o exército para resolver os problemas com a falta de segurança dessa região. Acontece que a intervenção vem sofrendo críticas, porque as operações, como são chamadas as ações do exército contra os criminosos, suspendem as aulas, fecham o comércio e fazem muitas vítimas entre os inocentes.

“Como moro em uma comunidade, eu me lembro que houve muitas operações e a gente não pôde ir para a escola. E eu lembro de um garoto de uma escola perto da minha, ao lado da minha, que foi alvejado até a morte.”_conta Luan.

Quando o assunto é esporte, ele se recorda da Copa do Mundo de futebol e dos Jogos Olímpicos de Inverno. Os desastres naturais também foram marcantes. Luan cita, por exemplo, um vulcão que entrou em erupção causando muitas mortes, mas adverte que não sabe onde isso aconteceu. Por outro lado, ele se lembra bem de um terremoto ocorrido na Itália e que deixou sua família super preocupada, porque uma tia de Luan mora lá.

Em 2019, Luan vai mudar de escola, porque a sua só oferece até o 6º ano. Para o próximo ano, ele espera que a mãe, atualmente desempregada, volte a trabalhar. Ele também torce pelo fim da violência em sua comunidade e também em outras comunidades que enfrentam esse mesmo problema. Gostaria que as pessoas tivessem mais amor, compaixão e que não destruíssem nosso planeta.

2018 para Giulia Zatri, de 10 anos (Milão, na Itália)

Em dezembro, a temperatura média da Itália foi de 2ºC

Giulia mora em Milão, a segunda cidade mais populosa da Itália. Para ela, uma retrospectiva adulta não é como uma retrospectiva feita por crianças. As duas até poderiam contar as mesmas coisas, falar de política ou desastres naturais, mas uma retrospectiva elaborada por crianças contaria de situações que se referem mais à infância. Por exemplo, poderia lembrar fatos relacionados à merenda escolar ou à entrada gratuita de crianças em museus. Poderia até falar de esportes, mas seria sobre os torneios internacionais que as crianças participam. “Nós, as crianças, também gostaríamos de expor os fatos ruins que aconteceram conosco, para que não aconteçam de novo.” explica.

Desenho de Giulia Zatri

Sobre 2018, ela afirma ter ficado impressionada com os desastres naturais. Giulia não se lembra bem onde aconteceram, mas sabe que essas coisas ocorrem no mundo todo e também na Itália, país onde nasceu e vive. Esse tema intriga a menina e provoca nela questões verdadeiramente filosóficas. Ela sabe que os desastres naturais, que provocam tantos problemas, ocorrem…naturalmente, claro! Mas ela se pergunta, entre a fascinação e o medo, se esses desastres são “culpa nossa ou simplesmente destino”.

Pessoalmente, o que mais marcou o ano de 2018 de Giulia foi a passagem para a Escola Média (algo como o Ensino Fundamental 2 brasileiro). As tarefas passaram a ser mais difíceis, mas ela sente que aos poucos foi aprendendo a se organizar melhor. Quanto às artes, percebe que seu desenho melhorou e se orgulha de ter aprendido a manusear a cola quente e o martelo de escultura. Uma outra característica da Escola Média que lhe chamou a atenção é que, nessa fase das escolas italianas, os professores acolhem mais as ideias dos alunos. Por exemplo, Giulia gosta de criar mangás e afirma que ficou muito feliz ao ver um mangá feito por ela exposto nas paredes da escola.

2018 para Aquiles e Éverton, de 12 e 8 anos (Amazonas)

Em dezembro, a temperatura média no Amazonas foi de 30 graus

Aquiles e sua família moram em uma comunidade ribeirinha, às margens do rio Xixuaú, no Estado do Amazonas. A comunidade está localizada em uma reserva ambiental protegida pelo Governo Federal. A floresta tropical e o rio são o quintal das crianças desta comunidade, habituadas ao convívio com tatus, preguiças, jacarés e outros animais de uma fauna riquíssima. No período das chuvas, o nível das águas do rio Xixuaú sobe bastante. Por isso, as moradias costumam ser construídas em elevações, evitando que a água invada as casas. No período de seca, a paisagem muda bastante e as margens do rio se transformam em pequenas praias.

Recentemente, projetos sociais conseguiram levar energia solar e internet à comunidade, o que nos permitiu entrar em contato com a família de Aquiles via Whatsapp.

Para esse menino de 12 anos, que se expressa em frases curtas e objetivas, “retrospectiva são fatos que acontecem no mundo, em nosso país, em nossas vidas e em todo lugar”. Ele cita como dois principais acontecimentos do ano de 2018: as queimadas e o desmatamento. Pesquisando um pouco, podemos descobrir que, no ano de 2018, as áreas desmatadas na Amazônia aumentaram 13,7%, atingindo uma área de 7.900km2 (algo como 1.100 campos de futebol ou 5 cidades de São Paulo).

Seu irmão caçula, Éverton, de 8 anos, completa o relato lembrando que em 2018, além das queimadas, ocorreram também a prisão do ex-presidente Lula e algumas enchentes. Ele destaca também um evento que ocorre todos os anos, mas que nem por isso deixa de ser memorável: o verão. 

Do ano que se inicia em janeiro, Aquiles espera mais saúde e emprego para a população, além de menos violência, fome e guerra. Éverton espera quem em 2019 haja menos corrupção e mais saúde, educação e alegria. 

2018 para Majo, de 12 anos (Medelim, na Colômbia)

Em dezembro, a temperatura média em Medelin foi de 25 graus

Majo é uma colombiana que vive com seus pais e seus sete irmãos em Medelim, a segunda maior cidade da Colômbia.  Nossa conversa aconteceu através de trocas de mensagens escritas pelo Whatsapp. Para começar, perguntamos a Majo quais foram, na opinião dela, os principais fatos (hechos, em espanhol) de 2018.

Antes de responder, a pequena colombiana quis se certificar de que estávamos falando do mundo, da Colômbia ou de sua vida pessoal. Respondemos que estávamos nos referindo ao mundo, claro, mas também nos interessávamos por fatos ocorridos em seu país e na vida de Majo. Ela pensa um pouco e em seguida começa a digitar um texto dividido assim:

    Fato pessoal: “Lembro dos bons momentos que passei com minha família e meus amigos. Não posso também deixar de citar o intercâmbio que fiz para o Brasil, um país muito bonito. Essa foi uma experiência que vou levar por toda a vida.”

   Fato da Colômbia: “Com certeza, o que aconteceu de mais importante esse ano no meu país foram as eleições presidenciais que elegeram Duque (Iván Duque Marqués) o novo presidente da Colômbia.” Majo considera positivo o resultado das votações, mas acredita que o país ainda tem muito trabalho pela frente. Para ela, o desenvolvimento não depende só do presidente, mas também de todos os colombianos.

    Fato mundial: Ela se lembra da Copa do Mundo, apesar de ter assistido poucas partidas, já que estava em um acampamento para crianças estrangeiras no Brasil. Majo gostou da vitória da França, porque acredita que o time francês foi merecedor.

Em seguida, perguntamos sobre o que ela deseja para 2019. Majo faz uma pausa para pensar e depois digita uma segunda lista mais ou menos assim:

  • Desejo que o mundo continue progredindo. Desejo também que haja mais consciência sobre o meio ambiente e que a pobreza diminua.
  • Gostaria que a Colômbia tivesse menos problemas com acidentes, roubos e mortes e que o país focasse no que é mais importante: o estudo econômico da pobreza e de muitas outras coisas.
  • Para sua vida pessoal, Majo vai buscar pensar mais nos outros, ajudando seus pais, irmãos e pessoas que não têm as mesmas oportunidades que sua família. Ela também gostaria de conhecer outras partes do mundo, continuar viajando e colecionando experiências inesquecíveis (ou inolvidables!, como se diz em espanhol).

 

Nós também desejamos que em 2019 os desejos dessas cinco e de outras tantas crianças se realizem.

A gente se vê no ano que vem!

Expediente:

Texto: Cibele Carvalho

Ilustração: Livia Arnaut

Convidados especiais: Sofia Hood, Luan Ramos, Giulia Zatri, Aquiles Encarnação e Majo.

Agradecimentos: À Claudia Souza, Cíntia Noronha e Renata Cunha. Aos responsáveis pelas crianças convidadas.