A declaração da ministra Damares. Nº 2 (2019)

A pastora evangélica Damares Alves, ministra do governo que tomou posse no início deste ano, andou dizendo algumas coisas que causaram polêmica e agitaram as redes sociais. Ela afirmou que o Brasil chegou a uma nova era, em que meninas vestem rosa e meninos vestem azul.

Damares é responsável pelo Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, criado por Bolsonaro para substituir o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, criado pela ex-presidenta Dilma Rousseff.

Após receber muitas críticas da imprensa brasileira e também da mídia internacional, Damares afirmou que sua frase deveria ser interpretada como uma metáfora. Uma metáfora é uma forma de dizer alguma coisa usando uma imagem que possui alguma característica semelhante. Por exemplo: Hoje a cidade está um forno! É claro que a cidade não se transformou em um eletrodoméstico, mas a imagem do forno evoca bem a ideia de calor.

Há um problema no fato de Damares afirmar que sua declaração é uma metáfora, porque a associação da cor azul a objetos de menino e do rosa a objetos de menina não é uma mera imagem, mas uma realidade que, aliás, não tem nada de nova. Você já parou pra pensar sobre por que essas cores são atribuídas ao sexo masculino ou ao sexo feminino?

 

 

Por que existem cores de menino e de menina?

Mas o que é gênero?

Mudanças no mercado de produtos para crianças

O que pensa quem é contra a chamada ideologia de gênero?

Crianças comentam a declaração da ministra Damares Alves

Por que existem cores de menino e de menina?

Entrando em uma loja de brinquedos, é fácil identificar a seção para meninos e a seção para meninas através das cores azul e rosa. Mas nem sempre foi assim. Até as primeiras décadas do século passado, meninos e meninas usavam roupas brancas até perto de 6 ou 7 anos.

O ultrassom, exame que permite descobrir o sexo do bebê antes do nascimento, não tinha sido inventado ainda, então os pais preparavam as roupinhas sem saber se chegaria um garoto ou uma garota. Registros históricos mostram também que era comum, em alguns países católicos, vestir as meninas de azul, em homenagem à Nossa Senhora, e deixar o rosa para os meninos.

Lembrar dessas diferentes formas de caracterizar os objetos como femininos ou masculinos através das cores é importante para mostrar que a associação do rosa ao feminino e do azul ao masculino é uma construção histórica, ou seja, uma ideia que surgiu e foi ficando mais forte com o passar do tempo.

A força dessa associação nos dias atuais é tão grande que leva algumas pessoas a pensar que o rosa é naturalmente feminino, enquanto o azul seria naturalmente masculino, o que não é verdade. O rosa e o azul são características de gênero e não do sexo feminino ou masculino. Mas o que é gênero?

 

 

Mas o que é gênero?

Todos concordam que nascemos em um corpo de menino ou de menina, ou seja, que cada pessoa possui um sexo (feminino ou masculino) definido naturalmente. Até aí, tudo ia mais ou menos bem, mas os estudiosos perceberam que, para compreender alguns problemas da sociedade, principalmente problemas ligados às desigualdades sociais entre homens e mulheres, a ideia de sexo definido naturalmente não era suficiente. Eles pensaram que também seria importante pensar nas características construídas pela sociedade para cada sexo, como no caso das cores rosa e azul. E foi assim que os pesquisadores criaram o conceito de gênero.

Em resumo, gênero são as características construídas pela sociedade ao longo da história para identificar as pessoas como menina/mulher ou como menino/homem. Por exemplo, não há regra na natureza que determine que o futebol é uma atividade masculina, mas é comum que, durante os recreios escolares, a quadra seja reservada para os meninos. Também não há lei da biologia que determine que o trabalho doméstico é feminino, mas as meninas costumam ser presenteadas com panelinhas e vassourinhas.

Pensando sobre isso, uma feminista francesa chamada Simone de Beauvoir afirmou que “ninguém nasce mulher, torna-se mulher”. Poderíamos dizer da mesma forma que ninguém nasce homem, torna-se homem. Nos dois casos, estaríamos afirmando que as características biológicas não são suficientes para definir o que é um homem ou uma mulher, sendo necessário pensar também naquelas características que aprendemos sem perceber, no quarto de bebê que nossa mãe preparou para nós, nos presentes que ganhamos de tios no aniversário ou nas formas como as personagens masculinas e femininas são representadas nos livros e filmes infantis.

Essas ideias podem ser um problema quando se tornam uma norma da sociedade que:

  • limita a liberdade de cada um ser o que é,
  • expõe a violências algumas pessoas que se comportam diferente do esperado,
  • dificulta ou impossibilita que as mulheres estejam em situação de igualdade social com os homens.

Mudanças no mercado de produtos para crianças

Nos últimos anos, o mercado de roupas infantis e brinquedos sofreu muitas críticas por reproduzirem em seus produtos os estereótipos de gênero.

A rede Hipercor recebeu muitas reclamações por vender roupinhas de bebê com frases sexistas como “inteligente como o papai, bonita como a mamãe”. Depois das reclamações, a loja tirou o produto de suas prateleiras.

Pelo mesmo motivo, a loja Zara suspendeu a venda de macacões para bebês. Os femininos traziam a frase “Pretty and perfect – It’s what daddy said” (“Bonita e perfeita – foi o que o papai disse”), enquanto os masculinos traziam a frase, “Cool and clever – It’s what mummy said” (“Legal e inteligente – foi o que a mamãe disse”).

A marca Clarks parou de vender sapatos que tinham uma versão masculina e uma feminina. Os sapatos para meninas se chamavam Dolly Babe (Bonequinhas) e os sapatos dos meninos se chamavam Leader (Líder).

A Gap também recebeu muitas reclamações por causa de propagandas em que as meninas eram tratadas como “borboletinhas sociáveis” e os meninos como “pequenos eruditos”.

Já a John Lewis, que é a terceira maior rede de lojas de departamento da Europa, tomou uma iniciativa pioneira e decidiu não mais separar as roupas em seções para garotos e para garotas.

As críticas aos estereótipos de gênero afetam não apenas a indústria da moda, mas também a indústria de brinquedos. Inicialmente, a marca Lego produzia brinquedos de montar unissex, isto é, para meninos e meninas. Com o passar do tempo, a Lego começou a incluir personagens de filmes e desenhos e foi aos poucos se tornando mais masculina.

Acontece que o público feminino começou a reclamar a ausência de personagens femininos. Tentando atender a esse protesto, a empresa lançou a Lego Friends, uma linha para meninas. O problema é que, enquanto as linhas masculinas traziam muitas aventuras, a linha feminina incluía salão de beleza, veterinário, piscina e carro conversível.

Como você pode perceber pelos exemplos acima, as roupas e brinquedos produzidos para meninas incentivam a beleza física e associam o feminino às atividades domésticas e de cuidado. Os meninos, por sua vez, são identificados como inteligentes, líderes e associados às atividades intelectuais e de exploração.

Especialistas acreditam que essa divisão começou a ocorrer depois da metade do século passado, quando a indústria percebeu que separar as mercadorias por gênero seria muito mais lucrativo. De lá pra cá, as crianças crescem cercadas por objetos, espaços e atividades identificados pelo gênero. Assim, há muitas gerações somos levados e levadas a acreditar que existem objetos e atividades de menino e de menina. Mas há quem não concorde com isso e busque mudanças. E há também quem prefira manter as coisas como estão. 

 

O que pensa quem é contra a chamada ideologia de gênero?

Nos últimos anos, ideias conservadoras têm ganhado cada vez mais espaço no Brasil. As ideias conservadoras são aquelas que querem manter as coisas como estão, enquanto as ideias que buscam mudar a sociedade são chamadas de progressistas. Em relação ao gênero, são considerados conservadores aqueles que defendem que meninas e meninos devam ser educados seguindo os estereótipos, ou seja, seguindo o modelo social pré-estabelecido. As meninas seriam educadas como princesas, ou seja, para usar cor de rosa, fazer atividades domésticas, esperar por um príncipe e ter filhos. Os meninos, por sua vez, vestiriam azul e seriam incentivados a viver aventuras, liderar e vencer desafios físicos e intelectuais.

Já os progressistas acreditam que meninos e meninas devam crescer com a possibilidade de vivenciar experiências diversas de forma que cada um possa ir descobrindo o que mais gosta. Meninas também poderiam vestir azul e jogar bola, enquanto os meninos também poderiam fazer tricô ou chorar sem ouvir que “chorar não é coisa de menino!”.

Os progressistas acreditam que o conceito de gênero é uma boa ferramenta para compreender esses estereótipos sociais limitadores, enquanto os conservadores preferem considerar gênero uma ideologia, ou seja, uma forma de pensar que engana.

E você? O que pensa sobre isso?

 

Crianças comentam a declaração da ministra Damares

Perguntamos a alguns leitores e leitoras da revista, o que acharam da declaração da ministra Damares Alves. Confira os comentários bacanas:

 

“Na minha opinião, essa frase não é verdadeira porque a cor preferida da minha prima Camila é azul e ela nem gosta de brincar de boneca, princesa e essas coisas. Uma vez, quando eu era novato, eu sentei em uma cadeira rosa e os meninos ficaram rindo de mim, falando que era cadeira de menina. Eu fiquei bem triste, mas a professora explicou para eles que não existia isso de cor de menino e menina.” Diego Correia, 7 anos, primo da Camila

“Eu gosto sim de rosa, o Diego está falando isso porque um dia meus primos e meus tios estavam brincando com umas boias na piscina que eram super legais. Aí, tinha uma boia muito pequena e eles queriam que ela ficasse comigo só porque era rosa. Aí eu disse isso, que azul era minha cor preferida.” Camila Correia, 6 anos, prima do Diego

“Sobre o que a ministra falou, que menino deve usar azul e menina deve usar rosa, eu acho que isso não define uma pessoa. A cor não importa e sim o que somos por dentro! Eu, por exemplo, gosto de azul, de todas as cores!” Sofia Hood, 10 anos

“Acho a afirmação da ministra um tanto quanto infantil. Geralmente, quem pensa assim são crianças de 6 anos ou menos. Aliás, espanta também porque quem falou isso foi uma mulher!” Samuel Carvalho, 11 anos

“Nada a ver”. Pedro Campos, 13 anos

 

“Eu não concordo nem um pouco com a frase “meninos vestem azul e meninas vestem rosa”, pois para mim (e para várias outras pessoas também) são apenas cores. Mas a sociedade insiste em afirmar que uma tal cor é para o sexo feminino e a outra é para o sexo masculino. Assim como os brinquedos: “Bonecas são para meninas e carrinhos para meninos”. Uma cor ou um objeto usado não define o gênero! Uma pessoa do sexo masculino pode usar rosa e isso não vai fazer essa pessoa virar uma menina. E uma pessoa com o sexo feminino pode sim usar azul, ou qualquer outra cor.” Ana Luisa Breseno, 13 anos

“Penso que a ministra afirmou isso como uma mensagem do governo conservador que temos agora, que não aceita coisas fora do padrão social, como meninas fazendo coisas que são consideradas de menino e vice-versa. Damares não foi literal, até porque, outro dia mesmo ela usou azul. Ela quis foi estabelecer o que ela chama de nova era. Eu discordo totalmente, pois voltar aos costumes antigos é regredir. Na minha opinião, nossa sociedade está se abrindo cada vez mais, defendendo os LGBTs e outras minorias. O problema é que sempre terão aqueles com o pensamento fechado e tradicional. E desta vez, o pensamento é do nosso próprio presidente.”_ Janaína Chin Ferreira, 14 anos

“No meu ponto de vista, quando a Damares disse que é uma nova era no Brasil, ela na verdade está voltando atrás em uma assunto que a gente demorou anos para se conseguir desconstruir. Porque até hoje isso existe e é o que a gente está lutando pra acabar há muito tempo. Além disso, acho que essa frase “meninas usam rosa e meninos usam azul” tem um significado muito maior do que realmente as cores em si. Para mim, é como se dividisse mulheres e homens e não existisse a igualdade, cada um podendo usar, ter, gostar do que prefere. Sobre as cores, a minha preferência é o azul. _Nina Silva Abreu, 13 anos

 

Se você também quiser contar pra gente a sua opinião, escreva para:

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Expediente:

Texto: Cibele Carvalho

Ilustração: Livia Arnaut

Revisão de texto: Bernardo Romagnoli Bethônico

Tratamento de imagem: Jairo Alvarenga

Crianças que participaram: Diego Correia, Camila Correia, Sofia Hood, Samuel Carvalho, Pedro Campos, Ana Luisa Breseno, Janaína Ferreira e Nina Abreu.

Agradecimentos: A Jairo Alvarenga e aos pais das crianças participantes.