Para quê serve uma greve? – Nº. 2 (2018)

No ano de 2018, ocorreram várias greves pelo Brasil afora, como as greves de professores, que deixaram muitos estudantes sem aula, e a greve dos caminhoneiros, que prejudicou a distribuição de alimentos e combustíveis por todo o país. Mas você sabe o que é greve e por que os profissionais param de trabalhar?

O que é greve e como ela acontece?

 

Professores de diversas cidades brasileiras entraram em greve no primeiro semestre de 2018, suspendendo as aulas em diversas escolas. Isso aconteceu porque empregados e empregadores não conseguiram entrar em um acordo sobre seus direitos e deveres. Os empregados, nesse caso, são os professores. Os empregadores são os donos de escolas particulares, ou o governo, no caso de escolas públicas.

 

Também os caminhoneiros entraram em greve, bloqueando várias estradas brasileiras e impedindo que combustível, alimentos e outras mercadorias chegassem à população. Parte dos caminhoneiros são funcionários de empresas de transporte, mas a maioria deles não é empregado e não possui patrão. São os chamados profissionais autônomos. Como são donos do próprio caminhão, eles protestaram contra o alto preço do combustível, porque, quanto mais gastam para abastecer, menos sobra para eles do valor cobrado do cliente para o transporte da carga.

No Brasil, o preço do combustível depende da Petrobrás, uma empresa que não tem um dono só, mas vários proprietários. O governo é dono da maior parte dessa empresa e, por isso, a manifestação dos caminhoneiros foi também um protesto contra o governo.

Há muitas formas de protestar para chamar a atenção para algum problema e a greve é apenas uma dessas formas. Uma greve é a paralisação das atividades com o objetivo de pressionar os empregadores para manter ou para melhorar as condições de trabalho de um grupo profissional. As greves não são realizadas por preguiça de trabalhar ou por vontade de fazer bagunça. Na verdade, elas podem trazer prejuízos para os próprios empregados, que às vezes ficam sem receber o salário pelos dias parados. E elas também trazem prejuízos para os empregadores, que não conseguem produzir sem seus empregados.

Apesar de gerar alguns transtornos para a sociedade, as greves são uma importante forma de equilibrar as relações de força entre patrões e trabalhadores, já que essas forças são bastante desiguais. Assim, os dois lados podem negociar de forma mais justa. Geralmente as greves são organizadas pelos sindicatos, que são associações que representam os trabalhadores. Funciona assim: os trabalhadores se reúnem em uma assembleia e votam pelo início da greve. Em seguida, uma pessoa do sindicato é responsável por se reunir com o empregador para negociar o que está sendo reivindicado pelos trabalhadores. Depois, o empregador oferece uma proposta e o representante do sindicato leva essa proposta aos trabalhadores, que se reúnem novamente em assembleia e votam:

(X) pelo fim da greve, caso concordem com a proposta, ou

(X) pela manutenção da greve, caso não fiquem satisfeitos com o acordo.

A greve dos caminhoneiros aconteceu de uma forma um pouco diferente, porque eles se organizam em diversas associações, e não através de um sindicato único. Eles combinaram sobre a greve através de grupos do aplicativo WhatsApp, já que trabalham dirigindo pelas estradas de todo o país, o que dificulta bastante a presença deles em uma assembleia.

 

 

 

O inusitado caso da greve de padeiros

 

Vamos imaginar o caso do Jorge. Jorge é padeiro na Padaria Pão Quentinho. Ele acorda todos os dias às três horas da manhã, quando ainda está bem escuro em Ventópolis, e o galo de Wanderlei, vizinho da casa ao lado, ainda nem cantou. Às quatro horas, ele já está no trabalho para colocar a mão na massa e preparar a primeira fornada, que precisa estar pronta antes mesmo da chegada do primeiro cliente. Como sua jornada de trabalho começa ainda de madrugada, ele tem direito de ganhar mais do que o padeiro que trabalha apenas durante o dia. “É o que diz a lei” – explicou Wanderlei, o vizinho que era dono do galo, e que tinha se tornado advogado recentemente.

Aquilo tudo era uma grande novidade para Jorge. E, com essa ideia fermentando na cabeça, ele conversou com seus colegas de turno sobre o que poderiam fazer. Juntos, decidiram explicar para o Seu Manuel, o dono da padaria Pão Quentinho, sobre o tal “adicional noturno”, esse direito que eles teriam de ganhar a mais pelo trabalho durante a madrugada.

Seu Manuel, conhecido em toda Ventópolis e arredores por ser um bocado pão duro, ouviu as explicações dos padeiros, enquanto torcia o bigode. Depois disso, o dono da Padaria Pão Quentinho franziu a testa, negou todas as reivindicações do grupo, virou as costas e se retirou da cozinha. E foi assim que Jorge e seus colegas de trabalho se dirigiram ao sindicato dos padeiros e decidiram entrar em greve, já que eram a parte mais fraca na relação e não tinham mais como negociar com Seu Manuel.

 

Quem inventou a greve?

A palavra greve vem de uma praça da cidade de Paris, capital da França, chamada no século 17 de Place de Grève. O local, que atualmente se chama Esplanade de la Libération, era utilizado por trabalhadores parisienses para conversar sobre suas condições de trabalho e organizar protestos por melhorias.

Mesmo que a palavra greve venha dessa praça localizada na cidade de Paris, os historiadores explicam que essa forma de protesto não é uma invenção francesa. Há relatos de paralisação até mesmo no Egito Antigo, cerca de 2.500 anos antes do nascimento de Cristo. Naquele tempo, os trabalhadores construíam as pirâmides em condições tão ruins que alguns historiadores preferem dizer que eles eram escravos. Não é de se estranhar que eles parassem de trabalhar em protesto por melhores condições.

 

Greves brasileiras consideradas históricas

No Brasil, a greve ocorrida no ano de 1917 é considerada uma das primeiras e mais importantes greves da história. O movimento começou com a paralisação de fábricas de roupas onde trabalhavam principalmente mulheres e crianças. Naquele tempo, o trabalho infantil ainda não era proibido por lei e as crianças eram submetidas a condições muito precárias: passavam a noite nas fábricas, eram castigadas quando dormiam durante o horário de serviço, não tinham direito a descanso nos fins de semana e recebiam um salário bem menor do que o salário dos adultos. Um dos objetivos dessa greve era acabar com o trabalho infantil, mas, infelizmente, o governo da época concordou apenas em analisar as condições do trabalho infantil noturno.

 

Apesar de não terem conseguido alcançar todos os seus objetivos, as greves desse período foram muito importantes para que no ano de 1943 fosse criada a principal lei dos direitos do trabalhador, que é a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho).

Depois da greve de 1917, o Brasil ainda passou pela greve de 1979 e por outras que se seguiram nos anos seguintes. Essas greves foram lideradas por trabalhadores da indústria metalúrgica (que é a indústria que extrai e prepara os metais para utilizações diversas, como a fabricação de carros e eletrodomésticos).

Ao contrário da greve de 1917, os grevistas eram principalmente homens e adultos, mas o movimento  não contava só com o apoio de homens e adultos. Pelo menos é o que sugere a foto abaixo:

Juca Martins. Apoio à passeata de mulheres durante a greve do ABC. 1980

 

Essas seguidas manifestações dos metalúrgicos foram fundamentais para que a greve passasse a ser considerada um direito dos trabalhadores na lei mais importante do país: a Constituição Federal de 1988. A garantia desse direito permitiu que os trabalhadores possam organizar ou participar de greves sem serem presos ou demitidos por isso.

Quem pode fazer greve?

A Constituição de 1988 garante que todos os trabalhadores têm direito à greve, com exceção dos militares, que também não podem se organizar em sindicatos. A lei também diz que o direito de greve não pode impedir os serviços essenciais à sociedade, como abastecimento de água, energia elétrica, assistência médica e hospitalar.

 

E os animais? Também fazem greve?

Uma pesquisa publicada na Revista Nature mostrou que os macacos também podem cruzar os braços diante de uma injustiça salarial. Realizada pela bióloga americana Sarah Brosnan e pelo primatologista holandês Frans de Waal, a pesquisa demonstrou que os macacos-pregos não gostam nada, nada de condições de trabalho injustas.

A experiência aconteceu assim: primeiro, os pesquisadores jogavam pedrinhas no recinto dos animais. Em seguida, eles recompensavam com alimentos os macacos que devolviam as pedrinhas lançadas. Depois dessa ação ser repetida muitas vezes, os macacos compreenderam a “proposta de trabalho”, mas perceberam também que entre as recompensas havia comidas mais apetitosas, como as uvas, e outras nem tão apetitosas assim, como os pepinos. E essa diferença de recompensa acontecia, mesmo que todos fizessem exatamente o mesmo trabalho!

O pagamento desigual desagradou os macacos que recebiam os alimentos menos apetitosos e gerou diferentes formas de protesto: alguns primatas cruzaram os braços e se negaram a procurar as pedrinhas, outros dispensaram os pepinos como pagamento e outros chegaram até mesmo a lançar essa leguminosa bem longe. Ao que tudo indica, o senso de igualdade de remuneração não é exclusivo dos seres humanos.

 

Fonte: Brosnan, Sarah e Waal, Frans. Monkeys reject unequal pay, Nature volume 425, pages 297–299 (18 September 2003) https://www.nature.com/articles/nature01963 (em inglês).

Pergunte a quem entende do assunto

Na segunda edição do “Pergunte a quem entende do assunto” Cecília Avansini (15 anos), Clarice Avansini (11 anos) e Laís Arnaut (6 anos) fazem perguntas ao fotógrafo Juca Martins sobre a foto abaixo, que tem o título “Apoio à passeata de mulheres de metalúrgicos durante a greve do ABC” e que foi tirada no ano de 1980:

 

 

Juca Martins é o apelido de Manoel Joaquim Martins Lourenço, que nasceu em Portugal e veio morar aqui com sua família aos 5 anos. Ele é um dos fotojornalistas mais  reconhecidos do Brasil, já tendo ganhado prêmios bem importantes. Ao longo dos seus mais de 50 anos de carreira, documentou vários episódios da nossa história, como as manifestações contra a ditadura, a seca no Nordeste e o garimpo na Serra Pelada.

Clique abaixo para ouvir o que o Juca nos contou:

 

 

Expediente

Manga de Vento –  no. Um – Para quê serve uma greve?

Texto: Cibele Noronha de Carvalho

Ilustrações: Livia Arnaut

Comitê editorial mirim: Cecília Avansini, Clarice Avansini, Laís Arnaut, Maria Cecília Alkmin, Maria Eduarda Breseno e Samuel Carvalho Alkmin

Revisão: Bernardo Romagnoli Bethônico

Consultoria técnica: Daniel Fernandes, auditor fiscal do trabalho e Luiz Arnaut, professor da Faculdade de História da Universidade Federal de Minas Gerais

Entrevistado convidado: Juca Martins