Direita e esquerda para crianças – Nº. 3 (2018)

Você já deve ter ouvido por aí que o Brasil vive um momento de polarização política. Isso quer dizer que, quando se trata desse assunto, as pessoas estão pensando em polos opostos, como em uma pilha.

Na filosofia política, esses lados opostos são frequentemente denominados esquerda e direita, mas você sabe o que pensa cada um desses lados e porque eles são chamados assim?

A história por trás dessa denominação

Tudo começou na França, no fim do século XVIII, quando os políticos se reuniam para debater assuntos de interesse comum. Nessas assembleias, aqueles que eram a favor de oferecer mais poder ao rei se sentavam à direita dele, enquanto aqueles que gostariam de diminuir o poder do rei se sentavam à esquerda. Essa divisão espacial não existe mais, mas permaneceu a divisão de ideias.

Há quem diga que essas definições estão meio desgastadas e que não ajudam mais a explicar muita coisa, mas há também quem pense que se tem tanta gente falando sobre direita e esquerda, é porque esses conceitos ainda estão funcionando muito bem pra explicar o mundo.

Grupos de direita e de esquerda concordam sobre vários temas. Os dois estão de acordo, principalmente, quanto ao objetivo central da política que é construir a melhor sociedade possível. No entanto, essas duas formas de pensamento escolhem caminhos bem diferentes para alcançar esse objetivo.

 

Os caminhos da direita e da esquerda

 

 

 

A direita defende a liberdade para que cada um possa produzir suas riquezas sem a intervenção do Estado. Ela acredita que a sociedade se organizaria melhor através da livre-concorrência entre os indivíduos.

Para isso, ela defende a diminuição do número de empresas do governo (também chamadas de estatais) e o aumento da quantidade de empresas privadas (que não são do governo).

Parte da direita defende que o governo deve ajudar as pessoas que possuam alguma dificuldade de competir na sociedade: as nascidas em situação de pobreza, as historicamente injustiçadas ou aquelas que possuam alguma deficiência física, por exemplo. Essa ajuda teria a função de compensar a dificuldade inicial,  permitindo que essas pessoas pudessem concorrer com chances iguais. Por outro lado, a direita pensa que o excesso de auxílios pode fazer com que a população se acomode e não queira trabalhar para ganhar dinheiro por conta própria.

 

 

A esquerda acredita que a liberdade não existe sem igualdade. Isso porque ninguém é verdadeiramente livre se sente fome ou não tem onde morar. Ela acredita ser importante distribuir os recursos, garantindo que o máximo de pessoas tenha acesso à saúde, à moradia e à educação.

Para isso, ela defende que o governo mantenha empresas estatais com o objetivo de cuidar de assuntos de interesse do país e também para ajudar na tarefa de promover a igualdade.

A esquerda pensa que é importante cooperar, oferecendo auxílios do governo às pessoas que, por qualquer motivo, tenham dificuldade de obter recursos fundamentais ao bem-estar. Para esse grupo, a concorrência desregulada tenderia a manter ou até aumentar as desigualdades e injustiças, por exemplo, fazendo com que as pessoas nascidas em famílias pobres encontrem mais dificuldades para estudar e conseguir melhores empregos.

Mas só existem essas duas ideias?

Além da esquerda e da direita, existem também a extrema direita, que leva os argumentos da direita às últimas consequências, e a extrema esquerda, que também radicaliza em suas posições. Se fossem torcedores de futebol, diríamos que os extremos são torcedores “roxos”. Isso pode se tornar um problema quando extremistas ameaçam, com violência, intolerância ou autoritarismo, o próprio jogo democrático.

 

Por fim, existe ainda um grupo que não é nem de direita, nem de esquerda, é o centro.  É um grupo que, ora apoia ideias da direita, ora apoia ideias da esquerda.

Mas isso é na teoria. Na prática, as coisas podem acontecer de um jeito bem diferente e os governos acabam misturando e adaptando as ideias. Isso acontece porque um presidente nunca governa sozinho, mas precisa negociar suas propostas com deputados e senadores (parlamentares) de outras posições. E isso também pode acontecer quando políticos não levam a sério suas ideias políticas e agem sem considerar o melhor para a sociedade.

E as crianças? Podem ser de direita ou de esquerda?

No Brasil, o voto é permitido aos jovens somente a partir dos 16 anos e é obrigatório a partir dos 18 anos. Porém, é comum que, mesmo antes disso, crianças e jovens se identifiquem mais com o pensamento da direita ou da esquerda.

As ideias sobre política das crianças são muito influenciadas pelo o que pensam os pais, a família e o meio social em que elas vivem nos primeiros anos de vida.

Apesar disso, existem também crianças e adultos que cultivam ideias próprias, diferentes parcial ou totalmente da forma de pensar dos familiares e amigos. E tem também aquelas pessoas que mudam de ideia ao longo da vida, ora votando na direita, ora votando na esquerda.

O importante é que cada um possa opinar livremente, respeitando diferentes pontos de vista. Isso porque a democracia só existe quando existem diversas formas de pensar.

E você? Que caminho acha melhor para o bem de todos?

Pergunte a quem entende

No “Pergunte a quem entende” as crianças fazem perguntas a um especialista sobre o tema. O convidado da terceira edição é Manoel Santos, professor do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais. Manoel pesquisa temas bem complicados, mas ele contou pra gente que responder as questões da Sofia e do Samuel, duas crianças de 10 anos, foi uma das coisas mais difíceis que ele já fez. O resultado dessa incrível troca de whatsapps, você pode conferir clicando aí embaixo:

 

Expediente da Edição 3:

Texto: Cibele Carvalho

Ilustrações: Livia Arnaut

Editorial mirim: Nina Abreu (13 anos), Rafael Hostalácio Andrade Côrrea (13 anos), Samuel Carvalho Alkmin, (10 anos) e Sofia Abreu Vilela, (10 anos).

Agradecimentos: Luiz Arnaut, Regina Helena Alves Silva e Daniele Hostalácio.

Tradução do Escuta Essa: Fernando Pimenta Marques

Revisão: Bernardo Romagnoli Bethônico

Entrevistado: Manoel Santos, professor do Departamento de Ciência Política da UFMG.