Por que em 2018 não vai acontecer o Nobel de Literatura? – Nº. 4 (2018)

No último mês de maio, a Academia Sueca anunciou que este ano não entregará o Nobel de Literatura, o prêmio literário mais famoso do mundo. A notícia é grave, porque a premiação só foi cancelada em períodos de guerra. Quer entender direitinho essa história? A Manga de Vento te explica:

  1. O que é o Nobel de Literatura?
  2. Críticas ao prêmio
  3. Por que este ano a premiação não vai acontecer?
  4. E na Academia Brasileira de Letras? Todos se sentem representados?
  5. Glossário: O que é violência sexual?
  6. Pergunte a quem entende: Com Conceição Evaristo

O que é o Nobel de Literatura?

O Nobel de Literatura é uma premiação que acontece desde 1901. A cada ano, a Academia Sueca escolhe um autor de qualquer nacionalidade para ser premiado pelo conjunto de sua obra e não por um livro específico.

A Academia Sueca de Letras foi criada em 1786, com o objetivo de promover a língua e a literatura do país. Aqui no Brasil, também temos uma academia literária, a Academia Brasileira de Letras. Criada em 1897, ela é composta por 40 integrantes chamados de “imortais”. Como você pode imaginar, existem várias academias espalhadas pelo mundo afora, muitas delas inspiradas na Academia de Letras Francesa, fundada em 1635.

 

O Nobel de Literatura é um prêmio mundial tão famoso quanto criticado. Imagine que, até hoje, nenhum escritor brasileiro venceu o prêmio. E o único escritor da língua portuguesa a ganhá-lo foi o português José Saramago (1998).

Na América Latina, somente seis escritores foram contemplados:

Gabriela Mistral (em 1945) e Pablo Neruda (em 1971), ambos do Chile,

Miguel Ángel Astúrias, da Guatemala, em 1967,

Gabriel García Márquez, da Colômbia, em 1982,

Octavio Paz, do México, em 1990 e

Mario Vargas Llosa, do Peru, em 2010.

 

Além disso, dentre os premiados, apenas cerca de 10% são mulheres.

Essas informações mostram que, apesar de ser considerado um prêmio mundial, o Nobel de literatura premia mais homens europeus. Outros escritores (mulheres e pessoas não brancas) já há algum tempo vêm afirmando que não se sentem representados pela premiação, ou seja, que ela não tem representatividade.

A desigualdade na premiação é um problema, não só por ser injusta com autoras e autores de diversas nacionalidades, raças, e etnias, mas também porque os leitores deixam de conhecer e de experimentar outras formas de expressão literária.

Por que este ano a premiação foi suspensa?

No último mês de maio, a Academia Sueca de Letras anunciou que este ano não haverá premiação. Esse é um fato grave, porque, desde a primeira edição do Nobel de Literatura, em 1901, o evento só foi suspenso nos anos de guerra mundial (1914, 1918, 1940 a 1943) e em 1935, quando foi considerado que nenhum escritor merecia o prêmio.

A crise surgiu após várias mulheres denunciarem um dos integrantes da Academia Sueca por atos de violência sexual. Diante do escândalo, parte dos membros votaram contra a expulsão do acusado e outra parte abandonou a Academia.(se você não sabe o que é violência sexual, consulte aqui nosso glossário)

A saída de tanta gente gerou um grande transtorno, porque as vagas da Academia são vitalícias, ou seja, cada pessoa só pode ser substituída após a sua morte. No entanto, o rei da Suécia, Carlos XVI Gustavo, que ocupa a mais alta hierarquia na Academia, declarou que irá modificar essa regra para garantir que os integrantes possam renunciar à vaga e serem substituídos. Por enquanto, com tantas cadeiras vagas e assuntos sérios para resolver, a Academia decidiu suspender a premiação, de forma que o ganhador de 2018 será escolhido juntamente com o de 2019.

Para tentar minimizar o problema do cancelamento da premiação e promover um debate sobre representatividade na literatura, um grupo de escritores suecos fundou às pressas a New Academy (Nova Academia) e está organizando um Nobel Alternativo. Para esse novo grupo, a literatura deve promover a democracia sem preconceitos de sexo, raça, ou religião. A lista de indicados para o Nobel Alternativo, elaborada por bibliotecários suecos, é composta por mais da metade de mulheres! E aliás, uma das indicadas é a autora de Harry Potter, J.K. Rowlling.

Pena que nenhum escritor ou escritora de língua portuguesa esteja na lista. Questionada sobre isso, Alexandra Pascalidou, que é uma das organizadoras da Nova Academia, afirmou que, nas próximas edições,  serão convidados bibliotecários de diversos países, para garantir que sejam indicados autores e autoras de diversas nacionalidades.

A premiação do Nobel Alternativo deve acontecer em outubro, mesmo mês do tradicional Nobel.

E na Academia Brasileira de Letras? Todos se sentem representados?

Recentemente, uma jornalista escreveu em seu facebook que faltavam pessoas negras na Academia Brasileira de Letras (ABL). Por causa desse comentário, foi criada uma campanha para que a escritora negra Conceição Evaristo concorresse à cadeira de número 7 da instituição, que estava vaga desde abril deste ano. Conceição Evaristo se auto candidatou, mas não foi eleita.

Com esse resultado, as 40 vagas vitalícias da ABL estão preenchidas assim:

 

Será que precisamos, por aqui também, de uma Nova Academia?

 

(Leia também o Outras dicas sobre este assunto para conhecer mais sobre a escritora Conceição Evaristo. Ela está também na seção Pergunte a quem entende, respondendo questões do nosso editorial mirim.)

Glossário

O que é violência sexual?*

 

Violência sexual é quando uma pessoa é obrigada, pelo uso da força ou de ameaça, a ter contato sexual com outra pessoa.

São algumas formas de violência sexual:

  • ter partes íntimas do corpo tocadas sem a sua permissão,
  • ser obrigada ou obrigado a beijar ou tocar o corpo do outro,
  • ou mesmo ser forçada ou forçado  a tirar fotos sem roupa.

Em geral, as vítimas de violência sexual são mulheres e crianças.

 

Se você está confuso quanto a esse assunto, não deixe de conversar com um adulto da sua confiança.

*Glossário elaborado com a orientação da psicóloga Ana Cláudia Eutrópio, doutora em Educação e coordenadora do Noz e Voz – Educação em Sexualidade.

 

Volte para o texto Por que este ano a premiação não vai acontecer?

Pergunte a quem entende: Conceição Evaristo

Maria da Conceição Evaristo de Brito ou simplesmente Conceição Evaristo é uma escritora mineira, nascida em Belo Horizonte, que vive há muitos anos na cidade do Rio de Janeiro. Filha de lavadeira, começou a trabalhar como empregada doméstica aos 8 anos de idade. Mesmo não tendo nascido em uma casa cheia de livros, ela sempre esteve cercada de familiares que gostavam de contar histórias. Fez faculdade de Letras e se tornou mestre e doutora em Literatura. Para Conceição Evaristo, a escrita e o viver se confundem. Para descrever essa ideia, ela inventou a palavra: escrevivênciaSeus contos e poesias estão publicados em diversos países.

Recentemente, a autora se autocandidatou para a Academia Brasileira de Letras e, com esse gesto, colocou o Brasil para pensar sobre porque, dentre as 40 vagas da Academia, nenhuma é ocupada por uma escritora negra.

Para saber mais sobre tudo isso, Manoella (11 anos), Bernardo (12 anos), Eliza (11 anos) e Francisco (12 anos) formularam quatro questões para a escritora. A conversa ocorreu através do aplicativo whatsapp e o resultado você pode ouvir clicando abaixo:

 

Expediente edição 4:

Textos: Cibele Carvalho

Ilustrações: Livia Arnaut

Editorial Mirim: Antonio Augusto Limoes, Bernardo Tito Guerra, Bernardo Gouveia Figueiredo, Bruno Carvalho Ernandes, Eliza Ferreira de Souza Silva, Felipe Furtado dos Santos, Francisco Vianna Mendes, Manoella Goulardins Mendes, Lucas Penna Menezes, Patrick Fourreaux Marino Caldas, Wagner Mendes Lacerda, Laura Rezende Policarpo, Thiago Schneider Gallo

Consultoria técnica: Laura Guimarães – Professora da Faculdade de Comunicação da UFMG e coordenadora do grupo CORAGEM (Comunicação, Raça e Gênero) e Anna Claudia Eutrópio Batista D’Andrea – Psicóloga, doutora em Educação e coordenadora do Nós e Voz – Educação em Sexualidade.

Agradecimentos: Andrea Zica, Ludimila Evaristo, Guto Borges, Laura Guimarães e Anna Claudia Eutópio Batista D’Andrea