O domingo de eleição contado por uma criança – Nº. 6 (2018)

Todo domingo, Júlia Maia, de 9 anos, acorda um pouco mais tarde e vai almoçar na casa de sua avó. Mas o domingo de eleição foi um pouco diferente. Júlia se levantou cedinho e foi com sua mãe votar. Só depois disso é que foi almoçar na casa de sua avó, mãe da sua mãe.

A mãe e a avó de Júlia votaram em candidatos diferentes, mas não aconteceram brigas por causa dessa diferença política. Como explicou Júlia: “Na família da minha mãe, todo mundo está em paz. Não tem nenhuma guerra, é um mundo pacífico”. Já na família do pai e na vizinhança, aconteceram algumas “briguinhas”.

Júlia conta que, um dia, sua mãe colocou uma bandeira da sua candidata preferida na janela. Zangada com a situação, uma vizinha pediu ao porteiro para avisar à mãe de Júlia que ela deveria tirar a bandeira. Antes de fazer isso, a mãe de Júlia tentou conversar amigavelmente com a vizinha. Acontece que a vizinha mandou pelo porteiro um recado bem claro: 

Mas vamos voltar para o planeta Terra, mais especificamente ao domingo das eleições… Naquela noite, todo mundo acompanhou o resultado da contagem dos votos pela televisão ou pelo celular. E claro, algumas pessoas ficaram bem chateadas, outras ficaram felizes e algumas ficaram bem preocupadas.

Na segunda feira, durante a aula, Júlia percebeu que só se falava em política. Ela conta que algumas crianças estavam comentando os resultados da contagem dos votos, quando o professor de circo advertiu: “Gente, isso aqui não é aula de política, é aula de circo! Se quiserem, vão discutir lá na assembleia de vocês.” Acontece que a vontade de falar sobre o assunto foi mais forte e algumas crianças continuaram discutindo política… até que foram tiradas da aula pelo professor.

E não parou por aí. Em outra aula, algumas meninas estavam brigando e a professora estava super brava tentando contornar a situação. Até que, do nada, o Miguelzinho (esse nome é fictício) vira pra professora e diz: “Em quem você votou, professora?” Claro que ela não respondeu, mas pelo menos a briga acabou.

Nem a professora de inglês conseguiu escapar da curiosidade de um aluno que arriscou: “Teacher, em quem você votou?” Para a decepção da turma, a professora respondeu assim: “Votei em… um candidato a presidente!”

Na hora do lanche, Júlia e suas amigas estavam em um cantinho secreto (que ela não pode contar onde é, justamente porque é secreto) e escondidas elas conseguiram ouvir uma conversa entre as funcionárias da escola: “Ah! Que pena que tal candidata não ganhou! Queria tanto que ela ganhasse!”

Talvez você, como a Júlia, tenha percebido que em todos os lugares só-se-fa-la sobre política. Nesta edição, vamos explicar mais sobre o segundo turno das eleições. Só não vamos poder contar qual é o candidato da professora, ok?

 

 

Por que existe segundo turno?

Quem é Jair Bolsonaro?

Quem é Fernando Haddad?

Quais as propostas de Haddad e de Bolsonaro para as crianças brasileiras?

Pergunte a quem entende com a participação super especial da professora de Ciência Política Marjorie Marona.

Por que existe segundo turno?

O segundo turno foi introduzido no Brasil em 1988. O objetivo dele é garantir que o candidato eleito seja realmente escolhido pela maioria. Funciona assim: se no primeiro turno nenhum candidato consegue mais da metade dos votos válidos, os dois mais votados vão para o segundo turno. Foi o que aconteceu nessas eleições. No primeiro turno, nenhum candidato a presidente conseguiu a tal maioria absoluta então, foram para o segundo turno:

O candidato Jair Bolsonaro, do PSL (46,7% dos votos válidos) e Fernando Haddad, do PT (28,37% dos votos válidos).

Vamos ver o que pensa quem é a favor e quem é contra cada um dos candidatos…

Os apoiadores de Jair Bolsonaro pensam que a maior parte dos políticos é desonesta e que ele é um candidato diferente dos outros. Eles pensam ainda que o uso de armas de fogo e de violência policial são as melhores soluções para a segurança das cidades brasileiras.

Por outro lado, Bolsonaro é muito criticado por defender os militares que tomaram o poder durante a ditadura de 1964, por ser preconceituoso contra mulheres, homossexuais, negros e índios, e por admitir que não sabe muito bem sobre os problemas do nosso país e como resolvê-los.

Os apoiadores de Fernando Haddad pensam que ele é um candidato que defende a democracia e que tem as melhores propostas para a educação, a saúde, o transporte e outras questões do nosso país.

Por outro lado, Haddad é muito criticado pelas pessoas que não gostam de seu partido, o Partido dos Trabalhadores (PT), que governou o Brasil de 2002 até o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff. Isso porque, nos últimos anos, alguns políticos do PT e de outros partidos foram acusados de corrupção.

Depois do segundo turno, saberemos que será o novo presidente do Brasil a partir de 2019. Quanto aos governadores, em alguns estados, eles já foram eleitos no primeiro turno, mas em outros estados haverá segundo turno. 

Ah, e para os cargos do legislativo (deputados e senadores), não há segundo turno.

 

 

 

Se você quiser saber mais sobre maioria absoluta nas eleições, clique aqui.

 

Quem é Jair Bolsonaro?

Bolsonaro é um candidato da Extrema Direita brasileira. Já foi filiado a sete partidos e, atualmente, é candidato pelo PSL (Partido Social Liberal). Ele nasceu na cidade de Campinas, estado de São Paulo, no ano de 1955. Sua mãe conta que não queria que ele fosse uma criança bruta, dessas que vive falando besteira. Era alto e magro e por isso era chamado de Palmito.

Bolsonaro se tornou capitão do exército e foi líder de um protesto para melhorar os salários dos militares. Naquela ocasião, planejou estourar bombas em quartéis se não conseguisse o aumento reivindicado. Por isso, ficou preso durante quinze dias.

Em 1991, começou seu primeiro mandato para deputado. Desde então, ele se elegeu deputado federal por mais sete mandatos seguidos. Mandato é o tempo que cada político é encarregado de trabalhar para o governo brasileiro. O mandato dos deputados dura quatro anos, ou seja, Bolsonaro é deputado há 28 anos (7×4). Mesmo estando há tanto tempo no poder, ele afirma que é contra o sistema político em geral.

De lá pra cá, Bolsonaro vem defendendo a volta da ditadura, o porte de armas de fogo e afirmando que as mulheres devem ganhar menos que os homens. Com tantas ideias polêmicas, ele é o deputado com mais reclamações no Conselho de Ética, que é o grupo de pessoas que cuida para que o trabalho entre os deputados aconteça de forma respeitosa.

Nesse período, Bolsonaro se candidatou à presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara. Essa Comissão é formada por deputados que propõem leis relacionadas aos direitos de todas as pessoas à vida, à dignidade e à liberdade, por exemplo. A candidatura foi muito polêmica e as pessoas ficaram se perguntando: Como pode um deputado que é crítico dos direitos humanos e defende a pena de morte e outras violências trabalhar nessa Comissão?

Quem é Fernando Haddad?

Fernando Haddad é um candidato à presidência da República da Esquerda brasileira. Seu partido é o PT (Partido dos Trabalhadores).

Haddad nasceu em São Paulo, no ano de 1963. Quando era criança, a cidade de São Paulo não era tão cheia de carros, então ele gostava muito de jogar bola, brincar de taco (também conhecido por bete) e andar de bicicleta pelas ruas do bairro. Ele conta que não sonhava em ser prefeito e que, naquele tempo, seu maior sonho era ser professor.

Estudou Direito, fez mestrado em Economia, doutorado em Filosofia e se tornou professor de Ciência Política. Trabalhou também em bancos e na prefeitura de São Paulo. Em 2005, foi convidado para assumir o Ministério da Educação do governo Lula. A principal característica do seu trabalho como ministro foi o esforço para permitir que jovens pobres pudessem cursar uma universidade.

Depois, Haddad foi eleito prefeito de São Paulo, a maior cidade do Brasil. Como prefeito, algumas de suas ações mais discutidas foram:

  1. A diminuição da velocidade máxima permitida para carros nas ruas e avenidas da cidade com o objetivo de reduzir os acidentes de trânsito;
  2. A construção de ciclovias (esses corredores para bicicleta) para que as pessoas usem menos os carros e, com isso, reduzam os congestionamentos;
  3. O fechamento de espaços públicos aos domingos para o lazer.

Quais são as propostas de Haddad e de Bolsonaro para as crianças?

Para responder essa questão, contamos nas propostas dos candidatos, quantas vezes aparecem algumas palavras que indicam alguns interesses das crianças. As palavras escolhidas foram: creche, educação infantil, infância, criança e infantil.

 

O resultado ficou assim:

 

Creche: Essa palavra não consta nenhuma vez no plano de governo de Bolsonaro e aparece 7 vezes no plano de governo do PT.

 

 

Educação infantil: Aparece 1 vez no plano do PT e também 1 vez no plano de Bolsonaro. 

 

 

Infância: Contamos 6 pontos para o candidato do PT e 0 para o candidato do PSL.

 

 

Criança: A palavra aparece 18 vezes no plano de Haddad e apenas 5 vezes no plano de Bolsonaro.

Infantil: Contamos 7 vezes essa palavra no plano de Haddad e nenhuma vez no plano de Bolsonaro.

 

Algumas propostas dos dois candidatos também podem ser encontradas em buscas pelo Google. Veja o que encontramos:

 

Propostas dos candidatos para o Ensino Fundamental

  • Haddad pensa que é importante investir mais dinheiro em educação.
  • Bolsonaro pensa que é melhor que as crianças fiquem em casa e assistam aulas pela internet para economizar.

Propostas dos candidatos para o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a lei que trata dos direitos das crianças e dos adolescentes.

  • Haddad pensa que crianças e jovens que cometem crimes (chamados de infratores) não devem ser presos junto com adultos, mas devem passar por um processo educativo. É o que diz o ECA.
  • Já Bolsonaro afirmou que é melhor rasgar o Estatuto da Criança e do Adolescente.

Independente de quem seja o candidato vencedor, o papel dos eleitores não termina depois do segundo turno. Cabe aos brasileiros continuar participando, se informando sobre o trabalho dos políticos e cobrando deles o compromisso com um país melhor para todos.

Mas esperamos também que depois dessas eleições a gente possa voltar a falar de outros assuntos.

E você? Que assunto gostaria de ler aqui na Manga de Vento? Escreva para nós a sua ideia: contato@mangadevento.com.br

Pergunte a quem entende: Profa. Marjorie Marona

Nesta edição, o Editorial Mirim aconteceu de um jeito diferente. Convidamos os nossos leitores e leitoras para enviarem perguntas por e-mail sobre o segundo turno das eleições presidenciais.  As perguntas foram lidas por Maria Cecília, de 15 anos (valeu, Ciça!). E para responder as questões da meninada, convidamos Marjorie Marona, professora de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais. Marjorie tem mestrado em Direito e doutorado em Ciência Política. Ela até realizou pesquisas na Universidade de Coimbra, lá em Portugal.

A conversa aconteceu por whatsapp. Enviamos as perguntas daqui de Belo Horizonte e a Marjorie respondeu lá de Porto Alegre, onde estava no feriado. O resultado desse encontro é uma entrevista inteligente, sensível e que nos ajuda a pensar o que é mais importante. Clique aí embaixo para escutar:

 

 

Expediente:

Texto: Cibele Carvalho

Ilustração: Livia Arnaut

Editorial Mirim: Samuel Carvalho (10 anos), Valentina Coelho (10 anos), Paula Moreira (12 anos), Maria Cecília Carvalho (15 anos), João Araújo(10 anos), Laís Arnaut (6 anos).

Convidada especial: professora Marjorie Marona

Agradecimentos: Às crianças que enviaram suas questões por e-mail e à Júlia Maia pelo depoimento.